
(Caim mata Abel...ou metáfora da esquerda contemporânea)
CRÍTICA
Aos leitores do blog, trago a seguinte novidade: o DCE da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois de 5 anos, não está mais vinculado ao PSOL. O resultado não poderia ter sido pior para a esquerda, pois a chapa vencedora foi a do Movimento Estudantil Liberdade, vinculado a partidos como PP, PSDB, DEMO, PMDB e PDT. Em suma, caros leitores, o DCE da principal universidade federal do RS agora está sob comando de partidos de direita.
Abaixo vai um quadro sobre o resultado final com as forças políticas presentes nas composições de chapa:
Chapa 1 (MES, ENLACE, APS): 1.524 votos (33,62%)
Chapa 2 (CST, AS, PSTU): 1.057 votos (23,32%)
Chapa 3 (PP, PMDB, PSDB, PDT, DEMO): 1.559 votos (34,39%)
Chapa 4 (PT e PCdoB): 337 votos (7,43%)
Brancos e nulos: 55 votos (1,21%)
Total: 4.532 votos
Sobre esses dados, podemos dizer algumas coisas: o número de votantes é o mesmo que costuma ter nas eleições do DCE, variando entre 4 a 5 mil alunos. Logo, a primeira postura que uma crítica deveria ter é de que não se pode atribuir a derrota da esquerda por um mero "esvaziamento" do processo. Nesse ponto, seguiu-se uma tradição de polarização política que leva, sem dúvida alguma, as pessoas a participarem de processos democráticos.
Outro ponto que creio que precise ser relativizado é o da origem dos cursos de onde vieram esses votos. É notório que engenharias, administração e medicina foram fundamentais na votação da chapa que defendia abertamente o fim das cotas na UFRGS. Mas isso não nos diz muito, já que via de regra esses cursos acabavam sempre pendendo mais pela direita entre os alunos. O que é significativo é que em diversos cursos de licenciatura, economia, direito, artes e educação física a votação não foi suficiente para a vitória da chapa 1.
Todos esses elementos também não podem excluir a questão da democracia no movimento estudantil. A lisura do processo é constantemente colocada em jogo e numa universidade de mais de 30.000 alunos, é muito difícil que uma entidade tão fragilmente formada como a comissão eleitoral consiga controlar tudo que está ocorrendo ao longo da votação. Ainda assim, esse argumento é também paradoxal, pois até onde sei, a chapa do MEL chegou a entrar com recurso pedindo anulação das eleições ANTES delas terminarem, alegando infrações. Porém, é possível prever que certamente o pedido de anulação será retirado.
Descartando todos esses fatores do cenário eleitoral da análise, o que nos sobra para avaliar essa derrota? Para isso, creio que seja necessário avaliar a eleição da direita através de uma narrativa auto-crítica, única forma possível da esquerda "aprender" alguma coisa.
AUTO-CRÍTICA
Refiro-me a uma narrativa auto-crítica por um simples motivo. Fiz parte da primeira gestão do DCE, "Consciência para ter coragem". Integrante de uma corrente do PSOL, entrei na gestão e acabei sendo designado para concorrer a um cargo no Conselho Universitário. A vitória da chapa foi esmagadora sobre a já desgastada chapa 1, chamada "Mãos à obra", que era composta por militantes do chamado "PT Amplo". Essa vitória também teve como resultado uma intensa mobilização dos estudantes contra o aumento do preço do Restaurante Universitário, angariando votos e propondo uma gestão mais horizontal, sem o indigesto cargo de "presidente". Sem dúvida, foi uma vitória importante para a esquerda contra um grupo que já estava se burocratizando na entidade.
Entretanto, como se deve saber, toda gestão acaba tendo problemas. Por uma série de atritos que ocorriam em diversas instâncias, a tendência a qual eu fazia parte acabou se afastando do PSOL e, consequentemente, do DCE. Passamos a militar, eu e outros companheiros, somente no centro estudantil da história. Decidimos não apoiar os nossos ex-companheiros de DCE e, mesmo diante de um duro processo de auto-crítica, chegamos à conclusão: certas correntes políticas como o Movimento Esquerda Socialista não estão dispostas a entrar na política estudantil senão para conquistar uma hegemonia absoluta, mesmo que para isso tenham que esmagar qualquer outro grupo minoritário. Em suma, se éramos chamados de sectários, tinhamos a certa convicção de que sectários são aqueles que não estão dispostos a dialogar sequer com seus aliados.
Não podemos dizer que a partir daí todas as nossas relações foram marcadas pelo atrito. Em 2005 não houve cooperação, mas em 2006 passei a acreditar na defesa do projeto do DCE contra a chapa governista, que estava articulando uma aliança entre todas as tendências do PT-PCdoB na UFRGS. Aos gritos de "quem não pula é governista", acabei por defender a proposta de nossos companheiros do DCE. Em 2007, diante do crescimento e organização de uma chapa do MEL - uma chapa de direita que era abertamente contra as cotas na UFRGS - voltei a apoiar os companheiros do MES e até mesmo a fazer campanha. E em 2008, por fim, voltei a apoiá-los, mas com menor envolvimento. Ainda assim, creio que essa última gestão era uma das que mais nutri esperanças e vejo, de certa forma melancólico, que seu fim é apenas a continuidade de um problema interno da esquerda no movimento estudantil.
Em 2007-2008, diante da força da direita, PSOL e PSTU se uniram numa chapa para combater o MEL. O resultado não podia ter sido melhor, a vitória foi acachapante e as cotas na UFRGS foram aprovadas com toda a força do movimento estudantil. Contudo, a gestão acabou implodindo por conta de uma série de divergências entre PSOL (MES) e PSTU. O resultado foi que o PSTU acabou se afastando e lançou uma chapa própria em 2008. O PSOL, por sua vez, percebeu que dependia de diversos setores para conseguir uma nova vitória e acabar por derrotar mais uma vez a direita. O MES acabou articulando alianças com diferentes setores, tais como o ENLACE, a CST, a AS, a APS etc. além de uma série de outros movimentos sociais dentro da UFRGS. A chapa, pela sua pluralidade e, é claro, pela própria dificuldade do MES em conquistar uma hegemonia dentro de um quadro tão plural de militantes, acabou ganhando força. A eleição em 2008 foi importante e, apesar da disputa com o PSTU, mais uma vez a vitória foi da chapa ligada aos setores do PSOL.
O que aconteceu? Novo processo de racha: MES e CST vinham se confrontando ao longo dessa gestão, pressionando os grupos não-vinculados ao PSOL a se ligarem a eles. Isso não ocorrendo, muitos preferiram se afastar, ou seguirem pautas independentes. A gestão resistiu bem, apesar dessas divergências. Contudo, no último Congresso dos Estudantes, a implosão ocorreu na votação final, com CST, alunos da ESEF e PSTU forçando uma discussão sobre o REUNI que não contemplava mais muitos dos alunos da gestão, incluindo aí o próprio MES. O resultado foi a formação de duas chapas, mas sendo que dessa vez o MES não conseguiu compor com outras forças, levando então à alianças apenas com alguns setores do PSOL.
Esse texto pode parecer apenas ressentimento contra o MES, em parte por ser alvo da vez na discussão, mas também pela minha experiência pessoal dentro do DCE. Quero evitar esse tom. Meu ponto contra o MES é um ponto que pauta a discussão sobre boa parte dos grupos políticos que se inserem no movimento estudantil: para eles, é preferível construir uma base política de militantes do que investir contra problemas referentes a própria condição de estudante no Brasil. Talvez exista uma mentalidade típica de "homo economicus" na esquerda brasileira. Pensamos que militar é investir e, de certa forma, exigimos que a nossa militância traga resultados maximizados. No Movimento Estudantil o investimento certamente não é tão significativo quanto em outras áreas da disputa política, portanto, o retorno que se espera dela é mais imediato. Mas isso é pensado através de uma lógica de auto-construção. Dessa forma, pode se deduzir que investir, nesse contexto, significa pensar em auto-construção. Gasta-se em recursos (seja dinheiro, seja a energia dos militantes) para se conseguir mais recursos (seja mais dinheiro, seja mais energia de militantes).
Essa lógica parece pautar, invariavelmente, partidos políticos que visam entrar dentro de movimentos sociais. Mas isso não significa reduzir tantas lutas a essa mentalidade tão tacanha. Pelo contrário! Temos de reconhecer que as lutas fazem parte desse processo e podem subverter toda essa lógica de auto-construção. Ou, em outros casos, a luta é fator essencial para a auto-construção. Não existe uma fórmula pronta...mas é certo que nenhum partido entra dentro de movimentos sociais - incluindo aí o movimento estudantil - sem esperar um retorno. E, se desconsiderarmos as diferenças ideológicas (às vezes tão mínimas que constrangem os próprios militantes), temos um quadro onde temos uma série de investidores esperando atrair recursos limitados para si. Se essa reflexão puder ser comprovada, estaremos diante de um assustador quadro político para a esquerda institucionalizada em partidos, onde ela parece ter se rendido a uma das mais perversas lógicas do capital que é a racionalidade absoluta do "homo economicus". Faz-se necessário, então, pensar o que fazer após essa crítica.
PÓS-CRÍTICA
Segundo o Inferno de Dante, a 1ª esfera do 9º círculo espera os fraticidas. Não é à toa que ela se chama Caína, em homenagem a Caim, que matou seu irmão Abel. Contudo, o inferno dos fraticidas da esquerda na política é a própria realidade. Diante da disputa por "corações e mentes", os "recursos" finitos da luta política, ela acaba caindo em princípios muito semelhantes da livre iniciativa capitalista: seja na concentração desses recursos e da consequente formação de monopólios, ou, pior ainda, na mútua-destruição dos recursos, afastando-os da luta política.
Cabe agora a nós, da esquerda política, refletir sobre a nossa atuação em movimentos sociais através de uma simples pergunta: como pensar a política além da mera disputa por "recursos"? Não creio existir uma resposta simples para essa pergunta, especialmente dentro do movimento estudantil, onde isso me parece tão próximo. E de fato, alongando essa lógica de uma racionalidade economicista pautando a política, o movimento estudantil é tratado como um investimento político de curto prazo e de rápido retorno. Concebida dessa forma, qual o espaço de tempo que existe para que esses "recursos" consigam derivar num fortalecimento político? Talvez sequer exista tempo suficiente para isso e, portanto, esses "recursos" se tornam ainda mais escassos.
Não adianta fazer chamados para isso sem fazer parte dessa esquerda partidária. Não sou mais militante do PSOL faz alguns anos, talvez o meu "lugar de fala" não seja realmente o mais indicado para fazer essa análise. Contudo, admito que detestaria passar minha eternidade vagando sobre Caína. A necessidade de reflexão que proponho não é a defesa do fraticídio, mas sim a crítica a essa "economização" da política. É ela que vai acabar levando a esquerda para um caminho sem volta para o nono círculo da realidade capitalista.

