segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Crítica, auto-crítica e pós-crítica

(Caim mata Abel...ou metáfora da esquerda contemporânea)


CRÍTICA

Aos leitores do blog, trago a seguinte novidade: o DCE da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois de 5 anos, não está mais vinculado ao PSOL. O resultado não poderia ter sido pior para a esquerda, pois a chapa vencedora foi a do Movimento Estudantil Liberdade, vinculado a partidos como PP, PSDB, DEMO, PMDB e PDT. Em suma, caros leitores, o DCE da principal universidade federal do RS agora está sob comando de partidos de direita.

Abaixo vai um quadro sobre o resultado final com as forças políticas presentes nas composições de chapa:

Chapa 1 (MES, ENLACE, APS): 1.524 votos (33,62%)
Chapa 2 (CST, AS, PSTU): 1.057 votos (23,32%)
Chapa 3 (PP, PMDB, PSDB, PDT, DEMO): 1.559 votos (34,39%)
Chapa 4 (PT e PCdoB): 337 votos (7,43%)
Brancos e nulos: 55 votos (1,21%)
Total: 4.532 votos

Sobre esses dados, podemos dizer algumas coisas: o número de votantes é o mesmo que costuma ter nas eleições do DCE, variando entre 4 a 5 mil alunos. Logo, a primeira postura que uma crítica deveria ter é de que não se pode atribuir a derrota da esquerda por um mero "esvaziamento" do processo. Nesse ponto, seguiu-se uma tradição de polarização política que leva, sem dúvida alguma, as pessoas a participarem de processos democráticos.

Outro ponto que creio que precise ser relativizado é o da origem dos cursos de onde vieram esses votos. É notório que engenharias, administração e medicina foram fundamentais na votação da chapa que defendia abertamente o fim das cotas na UFRGS. Mas isso não nos diz muito, já que via de regra esses cursos acabavam sempre pendendo mais pela direita entre os alunos. O que é significativo é que em diversos cursos de licenciatura, economia, direito, artes e educação física a votação não foi suficiente para a vitória da chapa 1.

Todos esses elementos também não podem excluir a questão da democracia no movimento estudantil. A lisura do processo é constantemente colocada em jogo e numa universidade de mais de 30.000 alunos, é muito difícil que uma entidade tão fragilmente formada como a comissão eleitoral consiga controlar tudo que está ocorrendo ao longo da votação. Ainda assim, esse argumento é também paradoxal, pois até onde sei, a chapa do MEL chegou a entrar com recurso pedindo anulação das eleições ANTES delas terminarem, alegando infrações. Porém, é possível prever que certamente o pedido de anulação será retirado.

Descartando todos esses fatores do cenário eleitoral da análise, o que nos sobra para avaliar essa derrota? Para isso, creio que seja necessário avaliar a eleição da direita através de uma narrativa auto-crítica, única forma possível da esquerda "aprender" alguma coisa.

AUTO-CRÍTICA

Refiro-me a uma narrativa auto-crítica por um simples motivo. Fiz parte da primeira gestão do DCE, "Consciência para ter coragem". Integrante de uma corrente do PSOL, entrei na gestão e acabei sendo designado para concorrer a um cargo no Conselho Universitário. A vitória da chapa foi esmagadora sobre a já desgastada chapa 1, chamada "Mãos à obra", que era composta por militantes do chamado "PT Amplo". Essa vitória também teve como resultado uma intensa mobilização dos estudantes contra o aumento do preço do Restaurante Universitário, angariando votos e propondo uma gestão mais horizontal, sem o indigesto cargo de "presidente". Sem dúvida, foi uma vitória importante para a esquerda contra um grupo que já estava se burocratizando na entidade.

Entretanto, como se deve saber, toda gestão acaba tendo problemas. Por uma série de atritos que ocorriam em diversas instâncias, a tendência a qual eu fazia parte acabou se afastando do PSOL e, consequentemente, do DCE. Passamos a militar, eu e outros companheiros, somente no centro estudantil da história. Decidimos não apoiar os nossos ex-companheiros de DCE e, mesmo diante de um duro processo de auto-crítica, chegamos à conclusão: certas correntes políticas como o Movimento Esquerda Socialista não estão dispostas a entrar na política estudantil senão para conquistar uma hegemonia absoluta, mesmo que para isso tenham que esmagar qualquer outro grupo minoritário. Em suma, se éramos chamados de sectários, tinhamos a certa convicção de que sectários são aqueles que não estão dispostos a dialogar sequer com seus aliados.

Não podemos dizer que a partir daí todas as nossas relações foram marcadas pelo atrito. Em 2005 não houve cooperação, mas em 2006 passei a acreditar na defesa do projeto do DCE contra a chapa governista, que estava articulando uma aliança entre todas as tendências do PT-PCdoB na UFRGS. Aos gritos de "quem não pula é governista", acabei por defender a proposta de nossos companheiros do DCE. Em 2007, diante do crescimento e organização de uma chapa do MEL - uma chapa de direita que era abertamente contra as cotas na UFRGS - voltei a apoiar os companheiros do MES e até mesmo a fazer campanha. E em 2008, por fim, voltei a apoiá-los, mas com menor envolvimento. Ainda assim, creio que essa última gestão era uma das que mais nutri esperanças e vejo, de certa forma melancólico, que seu fim é apenas a continuidade de um problema interno da esquerda no movimento estudantil.

Em 2007-2008, diante da força da direita, PSOL e PSTU se uniram numa chapa para combater o MEL. O resultado não podia ter sido melhor, a vitória foi acachapante e as cotas na UFRGS foram aprovadas com toda a força do movimento estudantil. Contudo, a gestão acabou implodindo por conta de uma série de divergências entre PSOL (MES) e PSTU. O resultado foi que o PSTU acabou se afastando e lançou uma chapa própria em 2008. O PSOL, por sua vez, percebeu que dependia de diversos setores para conseguir uma nova vitória e acabar por derrotar mais uma vez a direita. O MES acabou articulando alianças com diferentes setores, tais como o ENLACE, a CST, a AS, a APS etc. além de uma série de outros movimentos sociais dentro da UFRGS. A chapa, pela sua pluralidade e, é claro, pela própria dificuldade do MES em conquistar uma hegemonia dentro de um quadro tão plural de militantes, acabou ganhando força. A eleição em 2008 foi importante e, apesar da disputa com o PSTU, mais uma vez a vitória foi da chapa ligada aos setores do PSOL.

O que aconteceu? Novo processo de racha: MES e CST vinham se confrontando ao longo dessa gestão, pressionando os grupos não-vinculados ao PSOL a se ligarem a eles. Isso não ocorrendo, muitos preferiram se afastar, ou seguirem pautas independentes. A gestão resistiu bem, apesar dessas divergências. Contudo, no último Congresso dos Estudantes, a implosão ocorreu na votação final, com CST, alunos da ESEF e PSTU forçando uma discussão sobre o REUNI que não contemplava mais muitos dos alunos da gestão, incluindo aí o próprio MES. O resultado foi a formação de duas chapas, mas sendo que dessa vez o MES não conseguiu compor com outras forças, levando então à alianças apenas com alguns setores do PSOL.

Esse texto pode parecer apenas ressentimento contra o MES, em parte por ser alvo da vez na discussão, mas também pela minha experiência pessoal dentro do DCE. Quero evitar esse tom. Meu ponto contra o MES é um ponto que pauta a discussão sobre boa parte dos grupos políticos que se inserem no movimento estudantil: para eles, é preferível construir uma base política de militantes do que investir contra problemas referentes a própria condição de estudante no Brasil. Talvez exista uma mentalidade típica de "homo economicus" na esquerda brasileira. Pensamos que militar é investir e, de certa forma, exigimos que a nossa militância traga resultados maximizados. No Movimento Estudantil o investimento certamente não é tão significativo quanto em outras áreas da disputa política, portanto, o retorno que se espera dela é mais imediato. Mas isso é pensado através de uma lógica de auto-construção. Dessa forma, pode se deduzir que investir, nesse contexto, significa pensar em auto-construção. Gasta-se em recursos (seja dinheiro, seja a energia dos militantes) para se conseguir mais recursos (seja mais dinheiro, seja mais energia de militantes).

Essa lógica parece pautar, invariavelmente, partidos políticos que visam entrar dentro de movimentos sociais. Mas isso não significa reduzir tantas lutas a essa mentalidade tão tacanha. Pelo contrário! Temos de reconhecer que as lutas fazem parte desse processo e podem subverter toda essa lógica de auto-construção. Ou, em outros casos, a luta é fator essencial para a auto-construção. Não existe uma fórmula pronta...mas é certo que nenhum partido entra dentro de movimentos sociais - incluindo aí o movimento estudantil - sem esperar um retorno. E, se desconsiderarmos as diferenças ideológicas (às vezes tão mínimas que constrangem os próprios militantes), temos um quadro onde temos uma série de investidores esperando atrair recursos limitados para si. Se essa reflexão puder ser comprovada, estaremos diante de um assustador quadro político para a esquerda institucionalizada em partidos, onde ela parece ter se rendido a uma das mais perversas lógicas do capital que é a racionalidade absoluta do "homo economicus". Faz-se necessário, então, pensar o que fazer após essa crítica.

PÓS-CRÍTICA

Segundo o Inferno de Dante, a 1ª esfera do 9º círculo espera os fraticidas. Não é à toa que ela se chama Caína, em homenagem a Caim, que matou seu irmão Abel. Contudo, o inferno dos fraticidas da esquerda na política é a própria realidade. Diante da disputa por "corações e mentes", os "recursos" finitos da luta política, ela acaba caindo em princípios muito semelhantes da livre iniciativa capitalista: seja na concentração desses recursos e da consequente formação de monopólios, ou, pior ainda, na mútua-destruição dos recursos, afastando-os da luta política.

Cabe agora a nós, da esquerda política, refletir sobre a nossa atuação em movimentos sociais através de uma simples pergunta: como pensar a política além da mera disputa por "recursos"? Não creio existir uma resposta simples para essa pergunta, especialmente dentro do movimento estudantil, onde isso me parece tão próximo. E de fato, alongando essa lógica de uma racionalidade economicista pautando a política, o movimento estudantil é tratado como um investimento político de curto prazo e de rápido retorno. Concebida dessa forma, qual o espaço de tempo que existe para que esses "recursos" consigam derivar num fortalecimento político? Talvez sequer exista tempo suficiente para isso e, portanto, esses "recursos" se tornam ainda mais escassos.

Não adianta fazer chamados para isso sem fazer parte dessa esquerda partidária. Não sou mais militante do PSOL faz alguns anos, talvez o meu "lugar de fala" não seja realmente o mais indicado para fazer essa análise. Contudo, admito que detestaria passar minha eternidade vagando sobre Caína. A necessidade de reflexão que proponho não é a defesa do fraticídio, mas sim a crítica a essa "economização" da política. É ela que vai acabar levando a esquerda para um caminho sem volta para o nono círculo da realidade capitalista.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Lançamento: coleção História Social do Campesinato no Brasil

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Campanha por lei contra homofobia

Recebemos o seguinte texto que vale a pena ser lido e divulgado.
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O Senado está fazendo uma enquete sobre a aprovação da Lei 122/2006 que pune a discriminação de homossexuais.
A questão é que os evangélicos e homofóbicos são muito articulados e são uma bancada que tem impedido e bloqueado avanços sociais, principalmente os ligados aos direitos de mulheres, homossexuais e reprodutivos (vide o posicionamento da bancada evangélica contra os avanços de pesquisa de células tronco, que por sorte foi vencida!!)
Os pastores são contra essa lei a qual chamam a "lei da mordaça", pois não poderão mais falar em seus cultos que homossexualismo é doença ou pecado!
Em seus cultos costumam colocar na mesma linha homossexualidade e crimes horrendos como pedofilia, entre outros, confundindo os incautos! Inclusive prometendo a "cura" para a homossexualidade, num verdadeiro charlatanismo, visto a homossexualidade não ser considerado doença há décadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde)!
Então, exerça sua cidadania e vote SIM, pela aprovação da Lei que pune a discriminação de homossexuais!
Entre no site do senado e procure por ENQUETE (rolando a página um pouco para baixo): a ENQUETE está no canto direito da tela.
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Eis o link para a página da enquete, que está apertada. Vamos opinar aí gente!

Campanha contra as drogas




A tal campanha da maior empresa de desinformação do sul do país contra as drogas é uma falácia. Primeiro, porque em geral os usuários não se identificam com aquelas imagens de vídeo-game. Além do mais, aquilo não é "a" realidade, como a campanha tenta vender. Não trata da questão do prazer oferecido pelas drogas: só das suas conseqüências. Como política pedagógica, é um lixo. E contribui para a formação do pensamento pragmático no trato das questões sociais, o que é sempre pernicioso e abre portas para o fascismo.

Aliás, falando nisso, aquela empresa tem sistematicamente se engajado numa campanha pela criminalização dos movimentos sociais, na tentativa de blindar o governo gaúcho, que é apresentado como o "salvador das contas públicas". Cortar gastos sociais (escolas de lata, falta de repasses de verbas do SUS) e mandar a polícia apertar o certo contra as demandas dos pobres é a marca do governo, e nesse sentido a tal empresa o defende. Portanto, participe da campanha criada pelo Levante!



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

20 anos de colapso

Hoje se celebra ao redor do mundo Ocidental os 20 anos de queda do Muro de Berlim. Desnecessário dizer que aquele evento, celebrado como marco do fim do socialismo real, tem uma importância incrível no mundo contemporâneo. Contudo, trata-se de uma história ainda cheia de nuances e que merece ser constantemente revisitada. Por ora, deixamos aos leitores a leitura de um recente artigo do filósofo esloveno Slavoj Zizek, publicado hoje no NY Times. A tradução é nossa.

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20 anos de colapso

HOJE é o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Durante esse período de reflexão, é comum que se enfatize a natureza milagrosa dos eventos daquele dia: um sonho se tornando realidade, os regimes comunistas caindo como um castelo de cartas, a o mundo subitamente transformado de tal forma que seria inconcebível a poucos meses atrás. Quem, na Polônia, poderia imaginar eleições livres com Lech Walesa como presidente?

Contudo, quando a névoa sublime das revoluções de veludo foi desfeita pela nova realidade democrático-capitalista, as pessoas reagiram com um inevitável desapontamento que se manifestou, por sua vez, como uma nostalgia para com o "bom e velho" período comunista; seja de forma direitista, nacionalista, ou populista; e também como uma renovada e atrasada paranóia anti-comunista.

As primeiras duas reações são fáceis de compreender. Os mesmos direitistas que décadas atrás estavam gritando "Melhor morto do que vermelho!" estão agora resmungando, "Melhor vermelho do que comendo hamburgueres". Mas a nostalgia comunista não deve ser levada tão a sério: longe de expressar um retorno à cinza realidade socialista, ela é muito mais uma forma de lamento, de gentilmente lidar com o passado. Quanto à ascensão do populismo de direita, essa não é uma especialidade do Leste Europeu, mas uma característica comum de todos os países atingidos pelo vórtex da globalização.

Muito mais interessante é a recente reaparição do anti-comunismo indo da Hungria à Eslovênia. Durante o outono de 2006, grandes protestos contra o governante Partido Socialista paralisaram a Hungria por semanas. Manifestantes ligaram a crise econômica do país com o governo do partido sucessor do Partido Comunista. Eles negaram a legitimidade do governo, ainda que ele tenha chegado ao poder através de eleições democráticas. Quando a polícia veio para restaurar a ordem civil, comparações foram feitas com o esmagamento da rebelião anti-comunista de 1956 pelo Exército Soviético.

Esse novo pânico anti-comunista também vai atrás de símbolos. Em junho de 2008 a Lituânia aprovou uma lei proibindo a divulgação de imagens comunistas como a foice e o martelo, assim como o hino soviético. Em abril de 2009 o governo polonês propôs expandir a proibição à propaganda totalitária para incluir livros comunistas, roupas e outros itens: alguém poderia ser preso simplesmente por usar uma camiseta do Che Guevara.

Não é surpresa que, na Eslovênia, a principal crítica da direita populista contra a esquerda está ligada na idéia de "força da continuidade" com o velho regime comunista. Em uma atmosfera tão sufocante, novos problemas e desafios são reduzidos à repetição de velhas lutas, chegando ao absurdo (que algumas vezes aparece na Polônia e na Eslovênia) de que a defesa dos direitos dos homossexuais e a legalização do aborto fazem parte de um macabro plano comunista para desmoralizar a nação.

De onde essa ressurreição do anti-comunismo tira suas forças? Por que os velhos fantasmas ressucitaram em nações onde muitos jovens sequer lembram do período comunista? O novo anti-comunismo fornece uma simples resposta para essa pergunta: "Se o capitalismo é realmente tão melhor do que o socialismo, por que nossas vidas ainda são miseráveis?"

Muitos acreditam que é porque nós ainda não estamos vivendo uma plenitude capitalista: nós ainda não estamos numa verdadeira democracia, mas apenas num arremedo, onde as mesmas forças macabras ainda controlam o poder, um pequeno grupo de antigos comunistas disfarçados como os novos donos e gerentes - nada realmente mudou, então nós precisamos de uma outra depuração, a revolução tem de se repetir...

O que esses retrógrados anti-comunistas não conseguem perceber é que a imagem que eles têm de suas sociedades se aproxima enormemente à mais usada imagem da esquerda sobre o capitalismo: uma sociedade onde a democracia formal concede o poder apenas para uma minoria. Em outras palavras, esse recente anti-comunismo não compreende que o que eles estão denunciando como um pseudo-capitalismo pervertido é simplesmente o capitalismo.

Alguém poderia argumentar também que, quando os regimes comunistas caíram, os comunistas desiludidos estavam melhor preparados para dar conta da nova economia capitalista do que os dissidentes populares. Enquanto os heróis dos protestos anti-comunistas continuaram a lutar por seus sonhos de uma nova sociedade de justiça, honestidade e solidariedade, os antigos comunistas conseguiram se acomodar sem dificuldades às novas demandas capitalistas e ao novo e cruel mundo da eficiência do mercado, inclusive com todos seus novos e velhos truques sujos e corrupção.

Ainda há outro elemento a ser posto nesses países em que os comunistas permitiram a explosão do capitalismo ao mesmo tempo em que mantinham o poder político: eles aparentam ser mais capitalistas do que os próprios capitalistas liberais do Ocidente. Em uma maluca dupla-reversão, o capitalismo venceu o comunismo, mas o preço pago por essa vitória é de que agora os comunistas estão vencendo os capitalistas em seu próprio jogo.

É por isso que hoje a China é tão aterradora: o capitalismo sempre pareceu intrínsicamente ligado à democracia e diante da explosão do capitalismo na República Popular, muitos analistas ainda acreditam que a democracia política inevitavelmente vai acontecer.

Mas o que acontece se essa forma de capitalismo autoritário se mostrar mais eficiente e mais rentável do que nosso capitalismo liberal? E se a democracia não mais for o acompanhamento natural e necessário para o desenvolvimento econômico, mas o seu obstáculo?

Se esse é o caso, então talvez o desapontamento com o capitalismo nos países pós-comunistas não deveria ser tomado como um mero sinal de expectativas "imaturas" das pessoas que não possuem uma imagem realística do capitalismo.

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria deles não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista - as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo "socialismo com um rosto humano". Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

Isso nos leva a pensar sobre a vida e morte de Victor Kravchenko, o engenheiro soviético que, em 1944, fugiu para Washington em uma missão comercial e que depois escreveu um livro de memórias best-seller chamado "Eu escolho a liberdade" (I Chose Freedom). Seus relatos em primeira pessoa dos horrores do stalinismo incluíam uma detalhada descrição sobre a fome massiva que atingiu a Ucrânia no início da década de 1930, onde Kravchenko - que na época acreditava no sistema - ajudou a forçar o sistema de coletivização.

O que a maioria das pessoas sabe sobre Kravchenko termina em 1949. Nesse ano ele processou Les Lettres Françaises que seguiram a propaganda do semanário do Partido Comunista Francês, alegando que ele era um bêbado que espancava sua mulher e que suas memórias eram propaganda de espiões americanos. No tribunal de Paris, generais soviéticos e camponeses russos foram testemunhas do debate sobre a veracidade dos escritos de Kravchenko, e o julgamento cresceu de um processo pessoal a uma espetacular acusação de todo o sistema stalinista.

Mas imediatamente após sua vitória no caso, quando Kravchenko ainda estava sendo louvado ao redor do mundo como um herói da Guerra Fria, ele teve a coragem de se posicionar apaixonadamente contra a caça às bruxas de Joseph McCarthy. "Eu acredito profundamente," ele escreveu, "que na luta contra os comunistas e suas organizações...nós não podemos e não devemos recorrer aos métodos e formas empregados pelos comunistas". Sua advertência aos americanos: lutar contra o stalinismo dessa forma era viver o perigo de começar a se parecer com o seu oponente.

Kravchenko também se tornou mais e mais obssecado com as desigualdades do mundo Ocidental e escreveu uma seqüência para o "Eu escolho a liberdade" que foi entitulado, de forma significativa, como "Eu escolho a justiça" (I Chose Justice). Ele se dedicou a encontrar formas menos exploratórias de coletivização e foi parar na Bolívia, onde ele usou todo seu dinheiro tentando organizar camponeses pobres. Esmagado pela falência, ele se recolheu à vida privada e acabou atirando em si mesmo em 1966, em sua casa em New York.

Como chegamos a esse ponto? Enganados pelo comunismo do século XX e desiludidos com o capitalismo do século XXI, nós só podemos esperar por novos Kravchenkos - e que eles tenham finais mais felizes. Na busca por justiça, eles terão de começar do zero. Eles terão de inventar suas próprias ideologias. Eles serão denunciados como perigosos utopistas, mas eles terão conseguido sozinhos acordar do sonho utópico que nos aprisiona.

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Slavoj Zizek é o diretor internacional do Instituto Birkbeck de Humanidades em Londres e é o autor do recente livro "First as tragedy, Then as farce" (não publicado no Brasil ainda).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Lembrem-se de John Lilburne

(John Lilburne, em auto-retrato publicado em panfleto de 1646)


Hoje é 5 de novembro e talvez os leitores conheçam a história da Conspiração da Pólvora na Inglaterra, referenciada no sucesso dos quadrinhos e do cinema, "V de Vingança". Para aqueles que não conhecem muito bem, a Conspiração da Pólvora foi uma tentativa de assassinar o rei Jaime I e todos os parlamentares protestantes da Inglaterra em 1605. Numa ação promovida por Guy Fawkes e Robert Catesby, membros de um grupo radical católico que desejava abrir espaço para o catolicismo em terras anglicanas, o atentado acabou fracassando. Contudo, a imagem de Guy Fawkes como uma espécie de "anarquista" radical acabou ganhando força ao longo dos séculos como uma espécie de anti-herói popular (até mesmo a música "Remember", de John Lennon, faz referência ao dia 5 de novembro de Guy Fawkes).

Contudo, esse post não é sobre Guy Fawkes, mas faço questão de continuar perambulando pelo século XVII inglês. O homem da vez é John Lilburne.

Pulemos algumas décadas no século XVII - vamos até os anos que antecederam a Guerra Civil inglesa, que acabou com o primeiro grande regicídio popular da história européia. A chamada Revolução Inglesa não costuma ser muito estudada em sala de aula, mas talvez ela valha uma "missa". Lembremos que num processo político de disputa entre o rei Carlos I (sucessor de Jaime I) e o Parlamento, a situação tornou-se tão acirrada que a Guerra Civil foi inevitável. Nesse processo, destacou-se o famoso Oliver Cromwell, general que acabou por construir a revolucionária experiência do New Model Army. Contrariando a lógica militar da nobreza monarquista até então, Cromwell fundou um modelo de exército baseado no mérito pessoal e na disciplina e não mais na titulação nobliárquica e no soldo de mercenários.

E onde entra John Lilburne nessa história? Diante do processo de radicalização política que marcou a Inglaterra durante esse período, vários grupos religiosos e políticos surgiram, reivindicando novas representações sobre teologia e, é claro, sobre o que deveria ser o Estado e a sociedade. Alguns desses grupos ganharam bastante destaque, como os Diggers (cavadores) e os Levellers (niveladores). Os diggers talvez sejam mais de nosso interesse, pois tratavam-se de grupos radicais, que faziam uma interpretação bíblica muito próxima do anabatismo e que propunham coisas como o fim da propriedade da terra (e dos cercamentos, tão comuns já desde o século XVI), o voto por pessoa irrestrito (uma espécie de prelúdio do sufrágio universal) etc. Mas John Lilburne não era um digger, mas sim um leveller - aliás, uma liderança entre os levellers. Os "niveladores", por sua vez, não eram tão radicais quanto os nossos amigos "cavadores", mas sem dúvida também eram bastante revolucionários para o século XVII. Defendiam abertamente o voto por cabeça (exceto, é claro, nos casos de indigentes e trabalhadores assalariados), a abolição da monarquia e o fim da Câmara dos Lordes. Criado em 1645, o grupo tinha como líderes, além de Lilburne, John Wildman, Richard Overton e William Walwyn, todos eles cotejados por Oliver Cromwell e, depois, punidos pelo mesmo Cromwell.

Mas é aqui que a história fica um pouco mais interessante. Lilburne era bem visto por Cromwell nos seus tempos de pregador radical anti-anglicano e anti-papista. Sua prisão em 1638-39 foi motivo de inflamados discursos do futuro líder da breve república inglesa, exigindo sua liberdade diante do Parlamento. Em 1644 ele e Cromwell se tornaram amigos por conta dos seus serviços militares aos nobres de Manchester. Simpático aos parlamentares na Guerra Civil, lutou por eles de 1642 à 1645 - ano em que não foi aceito no New Model Army por se recusar a seguir o pacto do Presbiterianos que pautava as relações entre Parlamento e Igreja Escocesa Presbiteriana. A partir daí, Lilburne e Cromwell passaram a seguir por caminhos bastante opostos. Não que Oliver Cromwell tivesse qualquer pretensão com os presbiterianos, mas ele certamente acreditava na unidade do seu "Exército de Novo Tipo", enquanto Lilburne e uma série de outros protestantes se colocavam como adversários dos acordos com os presbiterianos. Dessa situação surgiram os "levellers", como uma força política considerável - alguns historiadores, como Christopher Hill, consideram que os "levellers" podem ter sido o primeiro partido político moderno.

A força simbólica da figura de um orador radical como Lilburne certamente era uma ameaça para qualquer um que estivesse no poder. Muitas vezes ele foi preso por conta de seus panfletos radicais e de suas pregações "perigosas". Em todas ele acabou sendo solto após os julgamentos, diante de um forte clamor popular que exigia sua libertação. A exceção surgiu quando Cromwell chegou ao poder. Ciente do poder que John Lilburne tinha em conseguir angariar as revoltas dos setores populares do Exército, ameaçando a principal instituição que dava força ao seu governo, Oliver Cromwell mandou que Lilburne fosse preso em 1653, depois de inúmeras tentativas de mantê-lo sob controle (incluindo um exílio forçado na Holanda). Após a prisão, Lilburne foi solto em 1656, depois de ter se convertido como "quaker" (estremecedores). No ano seguinte ele morreu enquanto visitava sua esposa e seus dez filhos, com 43 anos de idade, cansado de lutar contra o governo - de fato, em 1656 ele escrevera um longo panfleto anunciando sua conversão e seu afastamento da política.

Peço perdão aos leitores se o texto é longo e se as analogias são múltiplas. A história de John Lilburne é, de certa forma, a história padrão da esquerda em um âmbito muito maior do que podemos imaginar. Um exemplo semelhante, no campo cinematográfico, é o excelente filme de Ken Loach, "Ventos da Liberdade". Trata-se da história da esperança de uma revolução radical e do gradual desencantamento com soluções paliativas. Com esse desencantamento, ao contrário do que se poderia esperar, temos uma guinada ainda mais radical e perserverante...mas a revolução não vem e aqueles que mais contávamos nos traem em prol da ordem, da governabilidade e do poder. John Lilburne não agüentou a prisão e a perseguição sofrida...sabe-se lá o que passou em sua cabeça durante os seus últimos anos, desde sua conversão até sua morte - num curtíssimo espaço de tempo. Talvez estivesse enfarado, cansado, decepcionado...mas talvez também soubesse que o caminho escolhido por seu antigo amigo, Oliver Cromwell, era um caminho sem volta. Cromwell morre um ano depois de Lilburne e questão de anos depois, tem seu corpo exumado, violado e enforcado em praça pública. Talvez Lilburne soubesse que os protetores da ordem, da governabilidade e do poder acabariam por colocar na mesma cova rasa ele e Cromwell, que é a cova dos idealistas.

Por isso, caros leitores, nesse 5 de novembro, não lembrem de Guy Fawkes. Lembrem de John Lilburne, democrata radical, revolucionário, traído por seu amigo e comandante e que lutou até o fim de sua vida. Ignorem a Conspiração da Pólvora e lembrem-se de Niveladores e Cavadores. Enquanto homenagem, talvez não seja tão profunda. Mas enquanto capacidade reflexiva para a situação atual, talvez Lilburne nos ensine muito mais do que Fawkes e o 5 de novembro.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O professor ranzinza e o fascismo

Certa feita, um professor ranzinza de história da universidade (imperial) da republiqueta farroupilha veio defender abertamente o governo Lula, com o argumento de que o fascismo se apresentava no horizonte. Não acreditamos naquele exercício abstrato, pois parecia mais uma das tantas teorias da conspiração que os historiadores adoram criar. Mesmo tendo ouvido de fontes diversas os casos de agitação relâmpago nos quartéis (oficiais que ficaram 48 horas de plantão) quando estourou o escândalo do mensalão. Tudo parecia demais!

Há uma semana fui assistir a um seminário naquela universidade sobre a articulação necessária dessa instituição com os movimentos sociais, e ouvi uma bela palestra de um praça reformado da polícia militar de Santa Catarina sobre a necessidade da articulação desses profissionais com os movimentos sociais. Enfim, é um pessoal bom, de esquerda, que tem lutado pelo fim da militarização da profissão, por um novo modelo de polícia cidadã, mais próxima do povo. Essa semana alguns jornais daqui divulgaram a denúncia que dezenas de policiais da Brigada Militar em Viamão estão afastados do trabalho por problemas psicológicos decorrentes da pressão exercida pelo seu comandante, que ameaça lhes tirar o abono salarial federal (R$400,00) caso não cumpram a rigor suas ordens um tanto estranhas (como proteger preferencialmente comerciantes que contribuem em dinheiro ou materiais para a corporação). Não podemos esquecer do deslocado Coronel Mendes, que causou enorme desconforto nos escalões mais baixos daquela instituição quando aplicou seu terror de estado sobre os movimentos sociais e o povo pobre em geral. Trocaram o comando e mesmo assim meteram uma bala nas costas de um sem-terra.

Ontem à tarde uma atitude que eu não via faz tempo (não vivi muito, mas tenho lido sobre outros tempos): a pequena Federação Anarquista Gaúcha foi alvo de "busca e apreensão" da Polícia Civil, como noticiou o blog RS Urgente. Lembro de um panfleto anarquista que encontrei nos documentos da polícia gaúcha da época do Dr. Borges de Medeiros (1918), que basicamente trazia um texto em favor da paz mundial. Entre as anotações dos policiais, uma pergunta ao comandante: "Será que não devemos cortar as asas desses anarquistas?". Cortar as asas significava, entre outras coisas, empastelar redações de jornais populares, apreender material subversivo e conversar de perto com os militantes. Ontem à tarde, alguns membros da FAG prestavam depoimento enquanto seus cartazes e computador eram apreendidos.

Militares se coçando nos quartéis; insubordinação dentro dos quartéis; alianças esporádicas das forças repressivas com setores populares; endurecimento da repressão aos movimentos sociais; tolerância zero com os espaços de pobreza; reativação da polícia política; intelectuais como Saramago sem dúvida quanto ao avanço do "fascismo de gravata" na Europa; renascimento da divisão internacional entre direita e esquerda; golpes da direita contra a democracia no continente; crise do sistema capitalista de produção. Se o professor ranzinza nos falou de todos esses elementos na época eu não lembro, mas confesso que fico impressionado com sua capacidade de análise de conjunturas. Me sinto vivendo em 1929, e dá muito medo.